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Watchmen – uma obra de muitas consequências

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 – por Educomics*

Escrito durante a década de 80, a graphic novel cria um marco no mundo das histórias em quadrinhos e, principalmente, ao ideal norte americano de herói e de paz social. Watchmen, desde seu título carrega inúmeros significados, trazendo à tona a exímia capacidade metafórica de Alan Moore.

A trama começa – desde a referência de seu título – fazendo uma provocação existencial de todo um ideal, afinal, quem vigia os vigilantes? Esta ideia será o norte para toda a história que tem inicio com a morte de um ex-mascarado, o Comediante. A partir disso, surge a possibilidade de haver um ”assassino de heróis” que deve ser detido.

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A história é complexa, porém muito bem escrita… aliás, perfeitamente escrita. Sem absolutamente nenhuma ponta solta e com sutilezas surpreendentes, a graphic novel mais famosa dos últimos anos dá uma contribuição revolucionária ao mundo dos quadrinhos e heróis como um todo, pois explora questões éticas, morais e, portanto, humanas daqueles que “nos protegem”.

Ao término da leitura não é possível apontar o dedo para “o vilão” ou “o herói” da história. E isso, dentro da própria narrativa, faz completo sentido. Heróis com poderes de raio-laser ou super força? Vilões que dominam o mundo do crime com super armas? Esqueça tudo isso. Para além de uma história de heróis, Watchmen trata de política, de guerra e, porque não, de realidade?

No universo de Moore, o Comediante seria o “Capitão América” da Marvel – representa um grande ideal de senho americano, e ao matá-lo logo na primeira página, sua bomba ao mundo da HQ explodiu. A metáfora aponta para a fragilidade do ideal de herói e no modo de se produzir e escrever quadrinhos até então. A representatividade americana tanto na história como  na indústria de quadrinhos estava, enfim, questionada.

Na busca pelo então “serial killer” de heróis, Moore contextualiza fatos passados que desencadearam a então “crise do herói”, sob a qual a obra se debruça. Em meio às páginas, recortes de jornais ou até mesmo capítulos inteiros de um livro, apresentam como o mundo foi na época em que os mascarados ou “homens minuto” protegiam as ruas de Nova York. Em meio a estas obras paralelas conhecemos melhor o passado de muitos personagens e podemos, enfim, compreender a razão da então atual crise.

Contextualizado na Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética, a obra aponta a eminente extinção humana num conflito nuclear, o que, por si só, já traz diversas reflexões éticas. Afinal, os fins justificam os meios? E foi exatamente com essa pergunta que fiquei na cabeça ao terminar de ler.

Ao humanizar os ditos heróis, Moore rompe com uma tradição de décadas onde o mundo era dividido entre mocinhos e vilões. Além disso, questiona diversos outros estereótipos presentes nas outras histórias.

O papel da mulher, por exemplo. Na trama de Moore, há apenas uma mulher na equipe dos heróis. Seus trajes são absolutamente sexys e seus traços sempre denotam um caráter sexual ao leitor. Não há outra personagem feminina para “concorrer” com aquela e nisso ele aponta, de forma irônica, que o papel da mulher nas HQs é ser apenas uma personagem feminina sexualizada para o público leitor masculino se sentir atraído. Essas questões, ressalto, não ficam ocultas – pelo contrário – são abertamente discutidas ao longo da história: personagens insinuando coisas uns aos outros pela roupa chamativa, etc.

Outro ponto marcante na obra é Rorschach: um personagem que me tocou muito ao longo da leitura. Nele, centralizei diversas reflexões da obra como um todo. Na própria história temos o processo completo de transformação de Walter Joseph Kovacs no herói mascarado perverso e violento que é Rorschach. Desde sua infância, ele passou por diversas provações e superações que na vida real seriam planamente aceitáveis para justificar as atitudes violentas que ele viria a tomar posteriormente. A partir disso, me colocando no lugar dele me questionei se as ações deles são realmente incompreensíveis.

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A riqueza de Watchmen, na minha leitura, reside principalmente na politização dos heróis no mundo. Alan Moore busca debater como seria a presença de heróis – nos moldes até então criados – no mundo real; a quem responderiam? Governo? População? Agiram de forma autônoma? Com base em que poderiam agir como agem? A própria ideia, inclusive, de vestimentas é o tempo todo satirizada pelos próprios heróis com suas roupas e capas ridículas.

As contribuições e o impacto causado pela obra de Alan Moore provocaram uma crise ainda não superada na industria de HQ. Seus efeitos ainda causam desconforto para um ramo do campo literário sempre tão tradicional e conservador. A partir de sua publicação, Watchmen causou um efeito ainda não compreendido por completo.

Os vilões também são questionados no universo de Moore e, para finalizar, um último trecho marcante da obra:

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Coruja: Céus, você parece um cientista louco… Quando essa loucura ia acontecer? Pra quando você planejava isso?

Ozzymandias: “Planejava isso?” Dan, não sou um vilão de cinema. Você acha que eu revelaria meus planos se houvesse a mínima chance de que vocês impedissem sua realização? Eu já fiz isso há trinta e cinco minutos.

  * Educomics é um grupo de estudos de quadrinhos composto por estudantes da Educomunicação da ECA/USP.


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