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Robocop [Colabore]

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O Robocop de Padilha pode não ter a violência gráfica, mas, sem dúvidas, tem a violência ideológica e ácida de seu original.

por Gabriel Martins via Colabore

Situado em um futuro não muito distante ao nosso, a empresa Omnicorp tenta colocar nas ruas dos EUA robôs de sua própria autoria, os quais já dominam zonas de guerra pelo restante do mundo. Porém, para que a lei vigente que impede que isto aconteça seja revogada, Raymond Sellars (Michael Keaton), o CEO da empresa, precisa humanizar seu robô e assim customizá-lo a fim de agradar seu público alvo.

Muito do estilo de Padilha pode ser visto ao longo de todo o filme, como na pegada documental com sua câmera inquieta, por exemplo. Mas, a marca maior de sua filmografia é, sem sombra de dúvidas, a crítica que aqui se dirige a vários pontos, como por exemplo à mídia reacionária comandada pelo icônico Pat Novak (Samuel L. Jackson). Em uma representação que se assemelha ao Fortunato (André Matos) de Tropa de Elite 2, Novak é responsável por enfiar goela abaixo os ideais empresariais, justificando as ações da OMNI Corporation, manipulando as informações e não hesitando em criar fatos ou derramar baboseiras, chegando a chamar os americanos de “Robofóbicos”.

2Por outro lado, Gary Oldman, com o seu Dr. Norton, é talvez o personagem mais rico em profundidade. Em uma primeira análise, o engenheiro responsável pelo Robocop é uma pessoa preocupada com as questões humanitárias que envolvem o projeto, porém ele é invariavelmente levado a mudar de ideia sempre que vê o seu robô saindo de suas mãos ou sua reputação sendo colocada em jogo. Um momento que pode ser citado é aquele em que Norton não hesita em retirar a consciência de Alex Murphy, depois de ser ameaçado. Não seria exagero, contudo, imaginar que sua ação, ao “desligamento” final de sua criação, seja movida pelo seu ego e não por um ato de heroísmo.

Já Murphy, que aqui é interpretado por Joel Kinnaman, consegue dar ao seu Robocop a dimensão que aquela experiência seria para um ser humano que se vê vítima e propriedade de uma organização. Porém, a diferença fundamental deste Robocop de Padilha para o de Paul Verhoeven é que o atual tem, desde o início, consciência, porém a vai perdendo durante o longa.

É admirável também o cuidado do Design de Som ao homenagear o original, mantendo os barulhos dos passos, assim como nos momentos em que a armadura se mexe para alguma direção.

Já uma cena bastante marcante é a de quando Alex se observa no espelho, sendo desmontado peça por peça e se vê, ao final, com apenas alguns órgãos. O momento também pode ser interpretado como uma mensagem existencialista: o quanto de humano sobrou dele? Vale a pena viver ou sobreviver daquela forma? Afinal, o que ele é?

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Respostas estas que o filme dá de forma apenas satisfatória, ao lançar a luz para a resistência do homem contra a máquina – um outro subtexto interessante, se visto pela ótica de Padilha. O diretor obviamente ecoa nas relações americanas com seus exércitos, desumanizando-os (de novo como visto em BOPE), criticando também o consumismo, que usa a política como uma máquina de fazer dinheiro regado a muito marketing, a fim de promover o Robocop como um caso de sucesso. Não a toa, o Diretor brasileiro coloca na boca do CEO da OMNI Corporation, em determinada parte do filme, uma frase de um dos maiores ícones tecnológicos atuais, Steve Jobs: “as pessoas não sabem o que querem, até mostrarmos a elas”.

Publicado originalmente no Diário de Seriador

+ Confira a crítica de Robocop

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