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P.S. Eu te amo [Resenha]

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por Maíra Ocarino
18 de outubro de 2016
via Colabore

Quem nunca teve preguiça alguma vez na vida de narrativas dramáticas que atire a primeira pedra. Eu não sou de tietar os filmes de drama porque não consigo me identificar com a história ou sentir as emoções que são transmitidas. É claro que eu me emociono (não sou de pedra), mas é uma emoção que não me conecta com os personagens e isso é algo que é muito importante para mim: a capacidade que o autor tem de me fazer sentir como se eu fosse determinado personagem. Portanto a falta de interesse por livros de drama faz com que minha lista de leitura realizada careça de exemplares desse gênero.

São histórias inspiradoras e bonitas, não tem como negar. Mas estar em contato com algo tão detalhado sobre uma experiência muito introspectiva (como uma doença, ou a perda de alguém importante) já me deixa incomodada e triste, então se não provocar alguma reflexão aí é que não me prende mesmo.

Eu pensava assim de todas as histórias (filmes ou livros) classificadas como dramáticas até que conheci Holly e Gerry e tive que rever um pouco meus conceitos. A curiosidade em ler P.S. Eu te Amo, da escritora Cecelia Ahern, surgiu na busca de um livro diferente, fora dos meus gêneros costumeiros. Uma amiga gentilmente me emprestou o livro e lá fui eu no meu primeiro romance dramático (sim, esse gênero existe na minha cabeça). Jamais pensei que fosse gostar tanto.

Na verdade, conheci Gerry através das memórias de Holly. Ela conta, já no primeiro capítulo, sobre o tumor que o levou à morte e a deixou em um luto profundo por um bom tempo. Durante todo esse primeiro contato com a trama você vai pensar que a história será mais um daqueles clichês, nos quais você termina se acabando em lágrimas e sem nada além de tristeza. Apesar de Holly já iniciar a narrativa viúva, as primeiras páginas passam essa impressão, ainda mais pelo ar de depressão e de entrega total à dor que te contagiam e te deixam com a sensação de que é você que vai despencar em uma bad daquelas. (Pontos para Cecelia Ahern que conseguiu me fazer sentir como seu eu fosse a Holly). Tudo em sua vida girava em torno de Gerry, os empregos temporários, os amigos, as viagens e as memórias de mais de 15 anos de relacionamento que ocupavam toda a sua estante da vida. Exatamente por isso ela entra em um lugar tão sombrio com a partida dele, ele era o vento que a fazia navegar e sem isso ela fica completamente sem rumo, perdida.

Agora pegue o livro de volta. Eu sei que ele foi jogado na pilha dos abandonados após as inúmeras páginas iniciais de tristeza e sofrimento. Volte a ler e você se surpreenderá ao entrar em contato com fatos que vão além da dor da perda. É quando ela recebe um envelope com uma lista de afazeres deixada por Gerry que tudo começa a valer a pena. É um pouco mórbido, eu sei, e você deve estar se perguntando por que Gerry fez questão de trazer, junto com a lista, todas as lembranças que ela estava lutando tanto para conseguir fazer pararem de doer. Por que ele não poderia simplesmente deixá-la seguir em frente e esquecer? Mas à medida que a lista vai sendo cumprida, a jogada por trás dos movimentos fica mais clara. A cada mês, Holly é “obrigada” a fazer, sozinha, coisas que jamais faria sem Gerry e dessa forma vai recuperando sua autonomia.

Ela aprende a ver os lados da vida de outra maneira e aprende a viver por ela mesma, com os pequenos passos que ela dá a cada mês, a caminho do recomeço. Dessa forma ela acrescenta novas memórias às antigas e desvincula sua força vital da companhia de Gerry. Essa é a beleza do livro, a superação da morte não como o esquecimento, mas como o fortalecimento das memórias. Holly abriu espaço para novas singularidades que não iriam se sobrepor às antigas, mas iriam coexistir com elas e libertar seu espírito para a busca de novos caminhos e desejos. No fim, o morto devolveu a vida para a viva.

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