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O Demolidor Por Frank Miller – Dossiê Caneca

Demolidor por Frank Miller

Por Guilherme Souza

10 de Abril de 2015

O Demolidor foi criado em 1964 por Stan Lee e Bill Everett, um herói cego para rivalizar com Doutor Meia-Noite, da DC Comics, e expandir o universo da Casa das Ideias. Contudo, sua entrada no mainstream veio no momento em que Frank Miller entrou para a equipe responsável pelas histórias do personagem, em 1979.

Matthew Murdock perdeu sua visão quando criança em um acidente envolvendo uma substância radioativa, mas isso tornou seus outros sentidos muito mais fortes, ao ponto do Demolidor ser capaz de ouvir o mais leve som a uma distância considerável, além de ter seu tato e olfato fortificados. O brilhante advogado cego durante o dia se transformava no demônio de vermelho a noite, em um show de habilidades que faziam com que seus oponentes sequer notassem o problema de visão do herói.

Demolidor Por Frank Miller

O Ínicio – Demolidor por Frank Miller e Klaus Janson

Com essa base, Miller alterou completamente a pegada com que o Demolidor era visto pelo público, trazendo um tom mais pesado, urbano e denso para a série. O encadernado Demolidor por Frank Miller & Klaus Janson (Volume 1) traz esse começo, entre as edições 158 e 172 da HQ, acompanhando a mudança gradual em como o personagem era trabalhado.

Nessa época vemos Miller recontar a origem do personagem, colocando um tom mais dramático para Matthew, sempre remetendo a sua promessa de que se tornaria alguém bom para o pai, além de testes para montar a personalidade sombria que o herói apresentaria no futuro e deixando o ar brincalhão e engraçado de lado. Nós vimos a origem de Elektra, uma ex-namorada do herói que, após o assassinato de seu pai, decide se tornar uma heroína, indo treinar fora do país para isso, e também vimos o ciclo social do herói diminuir e se fechar cada vez mais, com a sua luta pelo crime isolando-o lentamente de seus amigos, como o seu parceiro no escritório de advocacia, Foggy Nelson, sua namorada Karen Page, ou a própria Viúva Negra, que na época tinha um relacionamento com o herói.

Além disso, nesse volume nós podemos ver e entender melhor toda a relação entre o herói e seu vilão Mercenário. Em diversas histórias vemos os dois lutando, com um momento claro onde Murdock salva seu inimigo da morte, um acontecimento que traz mais um peso para os ombros do herói e uma trilha de mortes da qual ele deve cuidar, uma trilha que se tornará pessoal e muito importante no futuro do personagem.

Por fim, nesse início Miller também cria um background mafioso muito mais profundo para o herói, trazendo o vilão Rei do Crime para a história. Sem sentir a necessidade de ter pressa, nós vemos o personagem ser apresentado na HQ de forma calma e calculada, demonstrando aos poucos o poder do Rei, até chegar no primeiro grande embate entre o Demolidor e ele, fechando este encadernado.

É notável a evolução do personagem nesta época, principalmente por conta da mudança na posição de Miller, que começou como desenhista, até ocupar o cargo de roteirista definitivo na edição 168, onde nos apresenta Elektra, e seguiria assim até a edição 191 (este primeiro volume, como dito, segue até a edição 172). Além disso, o herói deixou de ter os usuais vilões caricatos e espalhafatosos para se aprofundar no mundo da máfia, transformando o Demolidor no herói urbano que tanto conhecemos, lutando contra o Rei do Crime e seus asseclas.

Toda essa trajetória revitalizou o personagem ao ponto de torná-lo um dos líderes de venda da Marvel nos anos 80, além de apresentar Frank Miller para um mundo que aprenderia a apreciar seu trabalho com inúmeros personagens. E sabe o melhor? Esse nem foi o ponto mais alto do autor nas histórias do Demolidor, pois toda essa preparação abriu espaço para uma das maiores histórias que o mundo dos quadrinhos já viu: A Queda de Murdock.

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A Queda

A Queda de Murdock é considerada, até hoje, uma das melhores histórias em quadrinhos já feitas, além de ser a melhor história do Demolidor. É o ápice de todo o planejamento e trajetória de Frank Miller nas páginas do herói, mudando definitivamente o modo como o herói era visto.

A trama segue através das edições 227 e 233, com um Matthew já enfraquecido pelos acontecimentos prévios (como a morte de Elektra na edição 181), as investidas do Rei do Crime e a perda da namorada, trazendo um herói já em dúvida de si. Com isso, a história nos mostra o Rei finalmente descobrindo a identidade do herói, após sua ex-namorada, Karen Page, a revelar, e através das edições nós o vemos torturar lentamente o Demolidor, destruindo cada aspecto de sua vida que pôde, mas mantendo-o vivo para vê-lo sofrer.

A história é dividida em atos – Apocalipse, Purgatório, Pária, Renascido, Salvo, Pátria Amada e Armagedon – com os primeiros dedicados a destruir o herói, para então reconstruí-lo, ao mesmo tempo em que desconstrói o Rei do Crime.

O equilíbrio entre os dois personagens é um dos pontos altos da história. No começo temos um Rei poderoso e muito mais cuidadoso do que anteriormente, deixando o serviço pesado para seus capangas e se mostrando como um empresário, uma posição conquistada subornando até o governo americano. Ao mesmo tempo, temos Murdock em seu pior estado, a cada vitória do Rei, o vemos afundar ainda mais no buraco, até ele ser salvo. Até se reencontrar, com a ajuda da freira Maggie e de sua ex-namorada Karen, e se levantar para o definitivo embate contra o vilão, mudando as posições no jogo, enquanto Matthew se recupera, o Rei entra em um buraco cada vez mais fundo.

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O trabalho de Frank Miller serviu de inspiração para um número gigantesco de outras obras, não só da Marvel, mas de outras editoras, como a DC e seu Batman, também assumindo um tom mais sombrio e adulto através da década de 80. As edições com seu nome entre os criadores rendeu a fama do herói e serviu como base para a adaptação cinematográfica de 2003 (Demolidor – O Homem Sem Medo), com Ben Affleck. O filme tentou trazer toda a ambientação opressora da Cozinha do Inferno, além de colocar na tela momentos icônicos do herói, como a morte de Elektra (Jennifer Garner) e o embate definitivo entre Demolidor e o vilão Mercenário (Colin Farrell).

Embora tenha pego uma ótima fase do personagem, o filme não foi bem recebido pela crítica e pelo público, colocando o herói na geladeira, até seus direitos retornarem para a Marvel, que nos traz agora a série Demolidor, uma produção do estúdio com a Netflix que promete pegar essa época brilhante do herói e adaptá-la novamente para as telas, agora com mais cuidado e uma produção superior.

O Demolidor nunca mais foi o mesmo depois de Frank Miller, assim como a indústria dos quadrinhos. O Homem Sem Medo foi uma figura singular nos anos 80, e promete retornar ao grande público com estilo nessa nova adaptação. Vamos ver qual será o resultado disso tudo :)