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[Especial] A Bela e a Fera – do clássico ao contemporâneo

por Rodrigo Marinangeli

em 19 de Março de 2017

Crítica Bela e a Fera (2017)

Não é tarefa fácil falar de um dos filmes mais amados do final do século passado. Antes mesmo da estréia do filme a ‘hype’ em cima do mesmo já era enorme, com o trailer mais visto em 24 horas (127,6 milhões de visualizações) a adaptação da primeira animação a concorrer a um Oscar encarou um desafio que até então outras adaptações como Mogli ou Cinderela não tiveram que enfrentar: um público devoto e apaixonado.

A História

Considerado por muitos como um dos contos de fadas mais atemporais que temos notícia, “A Bela e a Fera” remonta uma longa linha literária que parte da mitologia grega, com o mito de Eros e Psiquê. A partir desse mito, seguiram-se diversos relatos folclóricos ao longo de séculos que tinham uma temática ‘animalesca’ onde a redenção era conquistada pela relação entre um monstro e um ser humano, e, em meados do século XVII alguns contos de fadas já preparavam o terreno para o conto que foi utilizado pela Disney como ponto de partida para a animação de 1991: Beumont, no Magasin des Enfants, publica La Belle et la Bête em 1757.

Mas o conto de Madame de Beaumont (Jeanne-Marie Leprince de Beaumont) não serviu de influência apenas para a Disney; Jean Cocteau, diretor francês, adaptou a história para as telas se tornando um clássico instantâneo em 1946.

A história original (1757) tem diferenças marcantes em relação a animação, e mesmo ao filme de 1946.

Mas antes de entrarmos na história em si, uma curiosidade: há relatos de que a história pode ter sido inspirada em um caso real de hipertricose (síndrome do lobisomem) doença caracterizada por um crescimento anormal de pêlos no rosto e em todo o corpo. Essa teoria se baseia principalmente no caso de Pedro González, um menino que teria nascido com a doença e, a partir de algumas desventuras, foi parar sob a custódia do rei da França, que, após um tempo, conduziu ‘testes’ com o garoto para verificar se ele era capaz de aprender hábitos humanos, como ler, escrever, aprender bons costumes, dentre outras coisas. Após a morte do rei, sua mulher, Catarina de Médici, mantém os testes e casa a ‘criatura’ com uma bela garota, afim de descobrir se essa ‘espécie’ seria capaz de procriar. São fatos verdadeiramente assustadores, mas que, pensando no contexto da época, podem ter, de fato, fertilizado a mente dos escritores.

De volta a história… tomemos como partida o conto de Beaumont (se você não conhece o conto original e quer conhecer, clique aqui)

Fica fácil perceber pelo conto que o filme da Disney adaptou bastante coisa, deixando vários aspectos mais atrativos e criando tramas totalmente novas (como o vilão Gaston, por exemplo).

O filme de Cocteau é bem parecido com o conto, com poucas diferenças, as mais marcantes são que Bela só tem 1 irmão (e não 3), e uma figura masculina se apresenta como melhor amigo do irmão, que acaba sendo o personagem antagônico a Fera (bonito, mas vaidoso e levemente egoísta). Outra diferença do conto é o retorno da Bela ao castelo, que se dá pelos irmãos que desejam roubar a fortuna da Fera. Diversas outras diferenças sutis completam o filme, algumas não aparentam ter explicação (como a Diana, uma estátua com um arco e flecha). Porém, o núcleo da história permanece o mesmo, a lenta conquista da Fera, a virtude da Bela e a bondade e o carinho com que a Fera trata a Bela todos os dias, bem como seu pedido de casamento.

É importante fazer esse resgate nas histórias que inspiraram a animação da Disney para entender que esse novo filme não bebe apenas de uma fonte, mas sim de várias.

Devemos lembrar que a história da animação tem diferenças que parecem criar uma nova história, quase descolada do conto.

Essa versão da Disney é, portanto, bem diferente do conto, principalmente pela adição de Gaston, que causa uma mudança grande na história. Não podemos esquecer também que um dos maiores atrativos da animação é que ela foi feita como um musical, contando com números musicais fantásticos que renderam 3 indicações ao Oscar de melhor canção.

O filme foi tão bem recebido enquanto musical que, três anos mais tarde, em 1994, ganhou uma versão para a Broadway, que, apesar das críticas negativas, foi sucesso de público e permaneceu 13 anos em cartaz. Para quem não conhece, o musical contou com a participação do Alan Menken, compositor original da Bela e a Fera (e diversas outras animações da Disney) que ganhou nada mais nada menos do que 8 Oscars com suas músicas. Outro nome importante é o de Tim Rice (que participou de O Rei Leão, Aladdin e Aida). Tim Rice entrou substituindo a trágica perda do Howard Ashman. Essa combinação de dois talentosos músicos rendeu um musical tão rico quanto o desenho original, com novas canções que aumentam a profundidade dramática e emocionam ainda mais os fãs da história (por exemplo a transformação final, que adquire uma carga emocional enorme com a Bela se declarando).

O musical da Broadway não ficou totalmente de fora dessa adaptação Live Action. Apesar de não usar diretamente nenhuma de suas músicas inéditas (e são várias), o filme incluiu na sua trilha a versão orquestrada de Home. Pra quem não sabe, Home é uma música totalmente original (melodia e letra) feita para o musical e ela não só dá um tom diferente para o sofrimento de Bela como ainda se torna, no final, parte do processo de redefinição de lar (I found home, you’re my home, stay with me) que ela tem. Claro, o filme não conta com essa profundidade, porém, traz 3 novas canções inéditas que acabam assumindo o lugar de músicas que foram usadas no musical para reforçar alguns momentos da história. As músicas (How Does A Moment Last Forever, Evermore e Days In The Sun) entram para aprofundar o relacionamento de Bela com o pai e o passado, a desilusão da Fera em encontrar o amor e o desejo dos objetos do castelo em quebrarem o feitiço; esse último, por sinal, já foi visto na versão extendida do filme, que conta com Human Again, que, no Live está muito bem representada por Days In The Sun.

O Live Action

Afinal, o novo filme é bom?

É bom ter em mente que o filme de 91 foi um um conjunto de fadários, algo que dificilmente pode ser refeito, e isso, sem dúvida, contribuiu para torná-lo o grande clássico que amamos.

Portando vou considerar aqui o filme como uma homenagem (vamos deixar de lado o oportunismo financeiro da fábrica de remakes que a Disney vem fazendo por um momento) e, nesse sentido, acredito que possamos, sim, dizer que o filme é bom: está tudo lá, o feitiço, a rosa, os objetos animados, a Bela heroína, a Fera em busca de redenção, o Gaston egocêntrico, e, claro, as músicas.

É verdade que algumas (consideráveis) mudanças foram feitas, mas, em sua maioria, ou respeitavam o conto que deu origem a história ou tentaram justificar furos presentes na animação (como a questão do passar do tempo no castelo), mas diversas falas e cenas foram quase idênticas a animação. Em alguns momentos acho que as mudanças pecaram em tirar o que o filme tinha de mais criativo e encantador, como, por exemplo, os vitrais no prólogo do filme ou uma ou outra fala de personagem (RIP “Promessas que nunca vai cumprir”), porém, não dá para agradar a todos.

Em relação às músicas, algumas mudanças também foram feitas, sendo uma das principais, novamente, no prólogo. Além da voz feminina narrando, ainda temos uma ‘Aria’ no meio da narração, o que deixa tudo menos fluído, talvez enfatizando demais a história do passado do príncipe, que, até então, nunca foi o foco de nenhuma versão. Uma curiosidade: no especial de natal que a Disney fez, a história que é contada é que o príncipe foi amaldiçoado no Natal, nesse prólogo isso não fica claro, mas considerando o baile festivo a possibilidade deles terem seguido essa idéia é razoável.

Outra mudança (que pessoalmente não gostei) foi na música Something There. A letra continua igual, mas a melodia ganhou um aspecto mais delicado que a tornou menos marcante, menos emblemática talvez, além do que a própria cena que antecede a música (da biblioteca) é muito menos ‘romântica’, a Fera não busca agradar Bela com a biblioteca, é um mero acaso. A música que rouba a cena nesse caso é provavelmente Days In The Sun, durante toda a trilha orquestrada se ouve os acordes desta música, e, durante sua execução no filme descobrimos mais sobre a história do príncipe enquanto criança e o porque de todos no castelo também serem amaldiçoados. Já Evermore (outra música nova) mantém o foco no sofrimento da Fera, sua solidão e esperança eterna de redenção, com essa música, diferente das solos que a Fera tem no musical, Menken cria uma ideia um pouco diferente sobre seu sofrimento, arriscaria até dizer que, mais do que o amor da Bela, a Fera busca o amor próprio.

Com How Does A Moment Last Forever, temos uma oportunidade desperdiçada, a música, lindamente escrita e instrumentalizada, acaba se perdendo no filme (e acaba se saindo maravilhosa nos créditos, cantada pela Céline Dion) já que busca aproximar a relação de Bela e seu pai, e resgatar o passado sobre a perda de sua mãe. Acredito que essa tenha sido uma das tentativas mais falhas de aprofundar a história, a cena em que a Fera aparece com o livro mágico e leva Bela a Paris parece tão desnecessária, seja pelo novo objeto mágico estranhamente poderoso, seja pela reprise da música cantada por Bela que não convence, e que busca um gancho dramático no luto pela mãe que não precisava estar na história.

Mas, sem dúvida, a adição mais marcante foi o aprofundamento nas passagens de Gaston. O filme ganha diversas mudanças por conta disso, inclusive, podemos reparar que não há Gaston (reprise) nesse filme, justamente pelas mudanças feitas em torno do vilão. As mudanças acertam a questão temporal do filme, e também levam o vilão a outro patamar, quase como tentando justificar que ele não era só presunçoso, mas maligno e capaz de cometer atos desumanos para conquistar seus objetivos. Existem prós e contras e, pessoalmente, acho que acabou adicionando informações demais na história, apesar de não ter ficado ruim e ter acertado a dose até certo ponto, é uma mudança que tenta tornar crível um conto de fadas que, a priori, não tem nenhum compromisso com o real. Outra mudança que não ficou legal em relação ao Gaston é que, logo no início ele vê Bela com um livro e tenta disfarçar que gosta de livros, uma diferença marcante se considerarmos que o Gaston da animação jogava o livro na lama e tinha total descaso pelos mesmos. No live action eles até tentam aprofundar a questão dos livros com a Bela sendo recriminada por ensinar uma menina a ler, deixando claro que os livros não eram para mulheres, mas, ainda sim, o desprezo pelos livros que tinha no original não aparece nesse filme.

Além disso outras diferenças mais sutis complementam as mudanças sem acrescentar muito, como a cena em que a Bela faz uma corda com as roupas para tentar fugir, provavelmtene querendo reforçar que ela é uma ‘princesa pró-ativa’ mas que acaba não tendo nenhum envolvimento com a história. O uso de arma de fogo ao invés de uma faca pelo Gaston na cena final também criou um clima bem diferente que perde a intensidade que um confronto físico teria, calma, ele existe, só dá espaço para esses momentos de disparos a distância que, de certa forma, enfraquece o trágico destino de Gaston.

Mas nem tudo que mudou ficou ruim, o filme manteve muitas narrativas chave, como a ênfase no olhar da Fera, do começo ao fim identificando o humano que existe ali, e acrescentou elementos do conto que fazem mais sentido. Por exemplo, a Fera só prende o pai de Bela quando o mesmo rouba uma rosa do castelo, mostrando que a Fera, antes de prender o pobre homem, oferece comida e abrigo para ele e seu cavalo Phillipe. Essa mudança humaniza um pouco mais a Fera e ainda brinca com a ideia de que a prisão eterna é ‘aparentemente o que acontece com quem rouba uma rosa no castelo’.

Existem também diversas homenagens no filme, todas bem singelas, a cena onde se vê a estátua de cachorro idêntica ao filme do Cocteau, por exemplo, é bem rápida e quase não dá tempo de processar a informação. Outra homenagem tão sutil que talvez seja coisa da minha cabeça, é na música Be Our Guest, no refrão “a culinary cabaret” em que a música imita um ritmo de Cabaret que é basicamente idêntico ao da música Willkommen, do musical Cabaret.

Enfim, uma mudança inspirada talvez no filme de Cocteau (que diz que quando é noite no castelo é dia na casa de Bela) explica melhor que, junto do encantamento, o castelo foi condenado a permanecer sempre no inverno, com neve cobrindo toda a superfície, o que corrige a questão da animação de que a Bela teria ficado todo o inverno com a Fera.

Mas com todas essas mudanças boas ou ruins, uma coisa a Disney conseguiu transportar com muita beleza e delicadeza para o filme: a transformação.

Com as falas emocionantes da Bela e da Fera presentes e ainda uma extensão dos objetos lidando com o destino de permanecerem objetos para sempre, a cena em que a Bela profere as palavras “Eu te amo” e dá início a transformação é capaz de arrepiar, mesmo sem a linda chuva mágica da animação, a condução de imagens, trilha e efeitos deixam a transformação quase tão poderosa quanto a do musical (e eu confesso que fiquei esperando a Fera falar: “Belle, look into my eyes! Belle, don’t you recognize?” mas não teve mesmo) e o retorno dos personagens a forma humana emociona, tanto quanto a sequencia do baile ao som da música tema, ainda com toques de comédia da Bela (Príncipe com barba, por favor) e do LeFou (que revela o segundo personagem gay da história).

Acredito que esse final tenha mostrado como o filme todo poderia ser, mais mágico (a cena do castelo sendo ‘restaurado’ é tudo que eu pedi pra ver nessa versão), mais emocionante, mais delicado e ainda sim convincente.

Mas antes de prosseguir para alguns apontamentos sobre a Emma Watson, gostaria de expor aqui o (música de revelação):

Mistério de “The Mob Song”

Sim, saí do cinema com aquela sensação de “onde está meu trecho favorito”???

A música tem um trecho bem impactante em termos de tanta xenofobia e preconceitos diversos:

“We don’t like what we don’t

Understand and in fact it scares us

And this monster is mysterious at least”

Inclusive, na trilha atual esse trecho está lá, mas, no filme, ele some! Porque eles fizeram uma versão para a trilha sonora e essa versão do filme é diferente? E porque excluir justamente esse trecho? Algum palpite? Eu sinceramente não tenho nenhum…

A sim, aproveito para um último elogio: Apesar de muitas músicas a legenda ter copiado e colado a letra das músicas dubladas, algumas eles traduziram, e, foi no mínimo revigorante poder ler “Um conto tão antigo quanto o tempo, uma canção tão antiga quanto a rima” ao invés do habitual “Sentimentos vem para nos trazer novas sensações”.

Bela Granger?

As comparações de Emma Watson com sua antiga personagem em Harry Potter parecem ser inevitáveis, e, convenhamos, diversos fãs da atriz nutrem especial carinho pela Hermione, os mesmos fãs que provavelmente já viram a animação da Disney e também se empolgaram em vê-la como Bela.

Tanta responsabilidade acabou gerando um mar de críticas e elogios e todos amam ou odeiam. Bom, então porque não fazer o isentão?

Emma Watson de fato não tem toda a magia que o desenho conferiu a Bela, mas ela tão pouco foi insossa ou superficial como alguns criticaram. Sua passagem no filme é cheia de altos e baixos, em algumas cenas demonstra sua força, convence nas expressões e nos gestos, e, logo em seguida, acaba perdendo o ritmo e quebrando a energia do momento. Acredito que o momento mais emblemático para ‘problematizar’ a nossa nova Bela é a música Bela (reprise). Começando forte e demonstrando desprezo pela proposta do Gaston, Emma convence com seus gestos, a revolta clara em suas expressões, porém, quando a pompa musical chega ao auge, quando a Bela se coloca sobre uma colina no melhor estilo “A Noviça Rebelde” e que é lindamente conduzida no desenho, vemos uma Emma Watson parada, cantando, sem convencer, quase como se estivesse petrificada olhando para o horizonte, não temos um movimento de encontro a grama, ou um dente de leão lindamente levado pelo vento. Claro, a condução de uma cena assim exigiria uma atuação de ponta para conseguir sustentar toda a força das últimas estrofes de Bela (reprise) apenas com a atuação, sem outros recursos como os presentes na animação, por isso acredito que em grande parte as falhas de atuação acabaram sendo um descuido da direção.

Quanto a Emma não saber cantar e usar auto-tune, bom, eu prefiro não opinar, achei que ela cumpriu bem o objetivo, as músicas ficaram bem gostosas de ouvir, aliás, todo o elenco, com destaque para o Dan Stevens, que entregou uma Evermore até mais bela que o Josh Groban.

Outro ponto que é positivo é que, como uma ativista dos direitos da mulher, Watson insere diversas questões, desde a pró-atividade enquanto inventora ou ensinando uma menina a ler, até sua falas de impacto em relação a sua visão de mundo ou dos habitantes do vilarejo (inclusive existe uma sutil referência a um spinoff em que Bela questiona a Fera sobre felicidade: “é possível ser feliz sem ter liberdade?”)

Agora, o que realmente importa, quem mais poderia ser Bela? Falem bem ou falem mal, mas Emma Watson tem todo o contexto atual que a torna a própria Bela, pois, assim como a Bela no filme quebrando o estereótipo de princesa Disney, Watson participa como embaixadora da ONU e vem mostrando ao mundo que uma atriz pode se envolver com política sem piegagens.

Alias, questões políticas parecem permear A Bela e a Fera para muito além da simples mensagem ‘não julgue um livro pela capa’…

Muito além de A Bela e a Fera…

E não dá pra falar de A Bela e a Fera sem entrar na polêmica do momento (resgatada, claro, pelo lançamento da adaptação). A Bela sofre ou não da síndrome de Estocolmo?

Para quem não sabe, essa síndrome é quando o prisioneiro se apaixona pelo sequestrador (ou, de modo mais amplo, quando o subjugado se apaixona pelo seu opressor). Bom, apesar de alguns defenderem que isso é o que acontece, eu tenho convicção de que não existe tal coisa neste filme, ou mesmo no conto. A relação de ambos é gradual, se constrói pelo convívio e não se torna uma obsessão. Tanto que a Bela reafirma o tempo todo que se recusa a obedecer a Fera, ela não tem uma relação submissa, mas começa a desenvolver um respeito e vê nele uma figura mal compreendida, tanto quanto ela era no vilarejo.

Em resumo: A Bela desenvolve uma amizade antes de se apaixonar pela Fera, e isso se dá quando ela nem está sob seu domínio, logo, ela não pode estar com a síndrome.

Bom, ok, então não existiu a síndrome. Porém, não podemos negar que existe uma relação de poder abusivo por parte da Fera, seria saudável a Bela se apaixonar por ele ainda sim? Não seria aquela desculpa de ‘ele me bate quando enche a cara, mas é um bom homem!” colocada em questão? Nesse ponto as críticas são válidas, e, comparado ao conto ou ao filme do Cocteau, a Fera não tem nada de cortez e fica difícil acreditar numa mudança tão drástica.

Mas será que a Fera tem motivos para agir assim? Talvez. Afinal, essa não é a única polêmica que envolve o filme.

Com o relançamento do filme a revelação de que a história de fato é uma referência a vida do letrista Howard Ashman e que a Fera é uma alusão para a AIDS causou estranhamento em muitos. De fato o foco na vida da Fera foi ideia do Ashman, e muitas outras ideias que ele deu estão presentes no filme, considerando que ele já estava com os dias contados e a doença era sua tortura, essa alusão parece óbvia.

Então, imaginando que a Fera tem que lidar com todo o tipo de preconceito e uma sociedade completamente conservadora, que passou a julgá-lo pela sua condição de monstro, talvez sua revolta e temperamento esquentado faça sentido, e, ao perceber que a Bela não só o respeitava como entendia um pouco desse sentimento, passou a se sentir acolhido e pertencente a sociedade.

Estes fatos, como todos os outros, são o motivo pelo qual a animação é uma peça inatingível, aliás, a falta de uma dedicação ao Howard Ashman nos créditos do live action foi algo que achei extremamente triste.

Mas temos algumas questões novas com o lançamento desse filme, talvez a mais polêmica seja do personagem abertamente gay: LeFou.

Na animação LeFou está presente como o fiel escudeiro de Gaston, e é ele que canta a música tema do vilão que é praticamente uma ode a sua masculinidade. Bom, se só isso já não der indícios de que LeFou é gay, então de fato o filme faz seu papel em deixá-lo ‘abertamente gay’. Mas não espera nada direto, muitos momentos ainda são mais uma indicação do que de fato algo aberto. Mas antes de criticar esse conservadorismo velado, é interessante pensar algumas coisas:

A história se passa em um momento em que a sexualidade não era algo tão simples e, pelo sua posição social LeFou jamais poderia ser o ‘gay empoderado’ que alguns gostariam que ele assumisse nesse remake.
Para os que criticam o estereótipo de ‘gay feliz e engraçado’, o LeFou, antes de ser ‘abertamente gay’ já era justamente esse alívio cômico na animação, ele, na verdade, ganhou muito mais criticidade no remake, ganhando inclusive um trecho de Mob Song em que acusa o Gaston de ser o verdadeiro monstro a solto.
Ainda estamos falando de um desenho infantil, se com algo tão sutil alguns paises já vetaram ou aumentaram a classificação do filme, imaginem se a Disney tivesse ousado mais? “Ah, mas é culpa dos lugares conservadores”, bom, a Disney quer dinheiro antes de ser ativista, e o dinheiro está em todo lugar, inclusive em lugares conservadores, quanto mais gente assistir melhor, isso significa classificação livre e exibição em todo cinema que ela conseguir alcançar.
Fim de caso. Alias, um caso que considero ainda mais sério também diz respeito a representatividade. Muitos elogiaram a adição de personagens negros na história, mas, observando pouco se percebe que nenhum deles é de fato um personagem central. Não estou falando para colocar a Bela ou a Fera, mas pelo menos personagens com mais visibilidade, como Horloge, ou mesmo a Madame Samovar. Porém, de novo, temos uma realidade histórica um pouco complexa para trabalhar essas questões, o problema é que a adição de personagens assim tão afastados do núcleo do filme parece discriminar mais do que incluir.

Bom, é isso. Espero que tenham gostado e perdoem por tantos detalhes, e ainda faltaram tantos outros…

E vocês? O que mais encontraram nesse reencontro mágico que seja digno de menção? Deixe um comentário, e nos ajude a enumerar as diferenças entre a animação de 1991 e o lançamento atual. Uma rosa a todos vocês.

1991 x 2017

Confira uma lista com algumas das mudanças entre o clássico e a versão live-action:

  • Prólogo é narrado por uma mulher e a maldição atinge também os moradores do vilarejo com um esquecimento sobre os empregados do castelo
  • Inversão de Bela (reprise): cena do pai preso acontece depois
  • Não é a fera que apresenta o castelo, ou que proíbe a ala oeste, é o Lumière e o Horloge
  • Villeneuve aparece como o nome do Vilarejo: homenagem a Madame Villeneuve que escreveu a primeira versão (menos conhecida) de La Belle et la Bête
  • Novo personagem: cravo musical
  • 3 novas canções (How Does A Moment Last Forever, Evermore, Days In The Sun)

História do Conto da Madame Beumont

O conto começa contando a história de um comerciante muito rico que possui três filhos e três filhas, a filha caçula, odiada pelas outras duas irmãs, é chamada de Bela pois era a mais bonita e admirada. As irmãs acabam com um papel importante na história, sendo o contraponto de Bela, já que são retratadas como pessoas egoístas, mesquinhas e cruéis. Logo no ínicio o comerciante (pai de Bela) perde toda sua fortuna e todos ficam devastados, as filhas, sem ninguém para desposá-las acabam aceitando se mudar para o interior, e Bela, mesmo com alguns fidalgos propondo-a em casamento, resolve ficar com o pai afim de oferecer consolo e ajuda. Já no interior, Bela se torna então a empregada da casa, enquanto suas irmãs apenas se preocupam com futilidades e vestidos.

Quando o pai recebe a notícia de que um de seus navios foi encontrado com toda a mercadoria intacta suas filhas entram em euforia, pedindo toda sorte de futilidades como vestidos e colares, enquanto Bela, que reprova a atitude das irmãs, pede apenas uma rosa.

O comerciante, porém, descobre ao chegar na cidade que não tem mais direito sobre a mercadoria e volta para casa desolado. Porém, no caminho de volta ele se perde uma floresta, e acaba encontrando um palácio, ao qual se abriga do frio e dos lobos, encontrando em seu interior uma farta mesa, na qual não resiste e come agradecido.

Quanto estava indo embora do palácio, ele avista uma roseira, e, lembrando do pedido de Bela, colheu um ramo. No mesmo momento uma Fera horrível aparece e ameaça o senhor, informando que terá que pagar com a vida por lhe roubar as rosas, que ama mais que tudo no mundo. Porém, a Fera, ao saber das filhas do comerciante, negocia que ele volte para casa e, em seu lugar, aceitaria uma de suas filhas para pagar por seu erro.

O comerciante aceita e, antes de voltar, a Fera ainda lhe concede um baú cheio de tesouros. Ao chegar em casa todos culpam Bela pelo infortúnio do pai, essa, então, decide que irá para o palácio. Ela e o pai chegam ao palácio e a Fera logo lhes oferece um banquete, ao amanhecer, Bela se despede do pai, contando sobre um sonho em que uma Dama lhe diz que não ficará sem recompensa pela boa ação. Após passar o dia ansiosa, Bela percebe que a Fera não parece ter pressa em matá-la, oferecendo um quarto, roupas e todos os tipos de mimos, dentre eles, um espelho mágico, que Bela usa para ver o pai que, ao se despedir da filha, cai em profunda tristeza e definha na cama.

Então, na hora da janta, Bela enfim viu a Fera novamente, que, após uma conversa, percebeu que apesar da aparência ele parecia ter um bom coração, até que, de repente, ele a pede em casamento, e, mesmo que custasse-lhe a vida, Bela recusa a oferta. Dia após dia o mesmo se repete, todo dia, no jantar, a Fera aparece e pede a mão de Bela, no que ela lhe responde sempre que não o deseja como marido, mas que ficaria feliz em tê-lo como amigo, até que, em um desses dias, Bela pede para que a deixe visitar seu pai, pois senão morreria de dor e a Fera, após hesitar, diz que tudo bem, mas que se a Bela não voltar, ele é quem morrerá de desgosto.

Bela parte para casa então, afim de passar 8 dias, e então voltar. Ao chegar em casa Bela encontra seu pai, que corre ao seu abraço e quase morre de alegria, Bela também descobre que a Fera mandou com ela um baú cheio de vestidos de ouro com diamantes, ela escolhe um e diz que irá dar os outros as suas irmãs, porém, assim que diz isso o baú desaparece, e seu pai explica que a Fera não queria que ela dividisse seu presente, no que o baú reaparece novamente. Bela então descobriu que as duas irmãs tinham casado, uma com um fidalgo lindo, porém extremamente apegado a aparência e nada mais.

A outra casará com um homem de grande inteligência, mas que só a usava para azucrinar os outros. As irmãs, ao verem a vida e a felicidade que Bela tinha, morreram de inveja, e bolaram um plano. Após os 8 dias, quando Bela ia voltar, as irmãs fizeram tão cena que Bela acabou prometendo ficar mais um pouco, sentindo-se culpada pela dor que causaria a Fera. Dois dias depois, Bela teve um sonho com a Fera caída na relva, agonizando, e percebeu que mesmo sem beleza ou inteligência ele era bom, e que sentia sua falta mais do que tudo.

Voltou ao castelo o quanto antes e, ao encontrar a Fera quase morta, disse que o queria como esposo, o que, no mesmo instante, causou fogos de artifício, música e mil luzes a se acender no castelo. O feitiço estava quebrado e a sua frente um lindo príncipe contou que uma fada o havia enfeitiçado até que alguém aceitasse o desposar.

Ao chegarem no salão do castelo, Bela encontra seu pai e toda sua família, e também uma dama, a mesma do sonho, que diz para Bela que ela será uma excelente rainha, pois preferiu a virtude à beleza ou à inteligência, e, após, transforma as duas irmãs de Bela em pedra, e diz que como castigo elas irão ficar junto a porta como estátuas, até que reconhecem seus erros, o que ela não acredita que irá acontecer um dia. Então, num passe de mágica, transportou todos para o reino do príncipe, que casou com Bela e viveu muitos anos numa felicidade perfeita, porque era baseada na virtude.

História da animação

Para começar, temos contato com a maldição da Fera antes mesmo de ser apresentados a Bela, essa, por sua vez, não tem irmãs ou irmãos, e mora sozinha com o pai, que é inventor. Como vilão, temos o Gaston, um personagem que representa a beleza mas que não tem modos ou respeito pela Bela (como iremos falar mas a frente).

O pai de Bela não rouba uma rosa (a rosa aqui é uma metáfora ao tempo se esgotando da Fera, quando a última pétala cair, ele não poderá mais voltar a ser humano), mas se perde na floresta e acaba no castelo, este, por sua vez, é cheio de objetos encantados que podem falar e ajudam-no a se abrigar do frio. Ao encontrar o homem em seu castelo, a Fera o confronta e o tranca numa torre como prisioneiro.

É ai que começa uma diferença marcante em relação ao conto, a Fera, antes beirando a bondade e a humildade, aparece como um ser revoltado, impaciente e impiedoso, essa diferença é marcante pois apesar da Fera ter a mesma sina em todas as versões, a da Disney ressignifica a personagem, focando na transformação dele, e não apenas na da Bela.

Esse é um dos motivos pelo qual podemos dizer que o filme faz uma analogia a Howard Ashman (que tinha AIDS e morreu meses antes do filme estrear), a Fera é reclusa da sociedade, que o vê como um monstro, um ser das trevas passível de intolerância. O filme ganha então um novo conceito de aceitação, não ligado apenas a aparência mais também as questões de discriminações sociais.

No decorrer da história, Bela descobre que seu pai corre perigo quando encontra seu cavalo vindo da floresta, ela então chega ao castelo e se oferece a ser prisioneira em seu lugar. Dá-se início então a transformação de ambos, os objetos do castelo, cientes da maldição, fazem de tudo para ajudar seu amo a conquistar Bela, essa, por sua vez, permanece irredutível, se negando a aceitar o comportamento rude da Fera, até que, após invadir um cômodo proibido, Bela se vê aterrorizada pela Fera e foge para a floresta, e acaba sendo atacada por lobos, e, nesse momento, a Fera aparece para salvá-la.

O filme então começa a mostrar a transformação de ambos, a Fera aprende a ser mais gentil e cortês, e Bela começa a perceber que apesar de sua aparência e de suas ações, existe bondade e um desejo de redenção nele, quebrando seus preconceitos e aceitando-o como um igual. Mas, tal como o conto, Bela vê seu pai no espelho e o mesmo está perdido na floresta, pois tentou voltar para salvá-la, ao voltar para casa para salvar seu pai, Bela acaba encontrando com Gaston, que havia bolado um plano para colocar seu pai em um manicômio, a menos que Bela se casasse com ele.

Para provar que seu pai não era louco ela mostra o espelho com a Fera para o Gaston, que, no mesmo momento convence todos no vilarejo de que o monstro é um perigo para todos e que devem marchar até o castelo para matá-lo. Ocorre então uma luta entre os objetos do castelo e as pessoas do vilarejo, Bela chega a tempo de ajudar a Fera em sua luta com Gaston, que esfaqueia a Fera e acaba caindo do alto do castelo para sua morte. Ao ver a Fera morrendo, Bela se declara e ele se transforma em um príncipe, e todos os objetos do castelo voltam a ser humanos.