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Demolidor – 1ª Temporada [Crítica]

Demolidor

Por Guilherme Souza

11 de Abril de 2015

A parceria entre Marvel e Netflix surgiu com um objetivo um pouco mais ousado no campo das séries de heróis e quadrinhos, tão populares no momento. A escolha de pegar heróis menores e urbanos torna a necessidade de boas tramas e construções de personagens bem mais necessária do que um herói mais fantasioso ou popular precisaria. Isso define se a série será boa ou não, basta analisar a última temporada de Arrow ou Gotham, que trazem cenários urbanos também.

E assim nos surge a adaptação de Demolidor para as telas, um risco e uma incógnita, visto o fato do herói ser cego e de seu passado no cinema não ter sido bem aceito. A solução da Marvel foi escolher bem seu nicho e o que mostrar para nós, aproveitando a vantagem que 13 episódios levam sobre um filme de duas horas.

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A Trama e as Adaptações

Buscando sua essência na fase de Frank Miller à frente do herói, a série não é uma apresentação didática para o público. Não se explica muito mais do que o necessário sobre a origem do herói ou seus poderes, com os famosos flashbacks sendo aplicados de forma muito mais controlada aqui – e na maioria dos episódios em que aparecem, não causam qualquer dano – e há momentos em que sua aplicação se sobressai, como no episódio dedicado a mostrar um pouco mais da psique de Wilson Fisk e como ele chegou até ali. Uma série dedicada a contar uma história, sem floreios ou subtramas aleatórias.

Outro acerto dos roteiristas está em controlar bem o seu universo, além de suas ligações com o MCU (Marvel Cinematic Universe). O submundo mafioso é o básico de NY, com as máfias dominando a cidade e um Wilson Fisk controlando tudo das sombras, tal qual nos quadrinhos. O ritmo e movimentação da trama, apesar de parecerem lentos em alguns momentos (especialmente nos primeiros episódios), evoluem com harmonia, mostrando cada pilar de Fisk ruindo sob seu peso e suas distrações. Além disso, não há pressa em apresentar o vilão, criando uma expectativa em relação a seu nome.

Deixando de lado a necessidade de ligar esta série com o resto de seu universo, Demolidor prefere brincar com pequenas referências ao universo cinematográfico, preferindo brincar com os usuais easter eggs, dos quais poucos são realmente perceptíveis para quem não conhece tão bem os quadrinhos.

Como é de se esperar, a série traz ou deixa de trazer diversos elementos dos quadrinhos já nesta primeira temporada. O destino de alguns personagens abre portas interessantes (e fecha tantas outras) para o que a série pode trazer no futuro, provavelmente com a inserção dos usuais personagens originais que as adaptações pedem. E também prefere guardar outros para o futuro, como o capanga Tucão, que aqui faz pequenas aparições.

Há um certo desperdício em alguns momentos, que parecem ser vítimas de uma pequena pressa para criar ganchos. A apresentação de Stick na trama, embora relacionada com a história, parece meio jogada, não condizendo com o resto da evolução que a série traz, e o aproveitamento da personagem Claire também deixa a desejar em certos momentos, surgindo no começo da série para então ir para para a reserva antes do primeiro tempo se encerrar.

Atuações

E essa trama nada seria sem bons personagens e atores. Charlie Cox (Matthew Murdock) consegue convencer e fazer esquecer o filme, aprofundando-se dentro dos limites que a sua história e o personagem carregam, e recebe o belo apoio de um Elden Henson (Foggy Nelson) inspiradíssimo, tão aleatório e engraçado quanto nos quadrinhos – sendo inclusive o alívio cômico na maioria das vezes em que há necessidade. Deborah Ann Woll (Karen Page) talvez seja o elo mais fraco dos amigos de Murdock, com relações pouco exploradas, embora a série deixe a entender que isso evoluirá, algo necessário para que a personagem chegue no ponto visto nos quadrinhos.

Enquanto esse trio não se estende muito além do necessário, a série oferece um ótimo elenco de apoio. Vondie Curtis-Hall (Ben Urich) traz uma carga pesada e cansada para o jornalista, e o ator Toby Leonard Moore (Wesley) rouba completamente a cena como o auxiliar de Fisk. A maneira como o personagem se posta diante dos acontecimentos através dos episódios criam uma dúvida eterna quanto a sua lealdade ou objetivos, algo que culmina em uma cena plenamente inesperada no final da temporada.

Por fim, Vincent D’Onofrio criou um vilão espetacular em seu Wilson Fisk. A obsessão, a raiva e a força bruta do personagem se encontram na atuação de Vincent, que também trabalha para mostrar que a mente de Fisk é muito mais perturbada e complicada do que aparece de fora. A maneira de falar, o olhar e os gestos, tudo muda conforme o personagem vai se aproximando de seu derradeiro destino ao fim da temporada, cada vez mais cego e inconsequente.

A Produção

Demolidor não engana e não esconde em nenhum momento o que a série é e qual seu objetivo. O visual urbano de NY está ali, as referências aos quadrinhos estão nos lugares certos e a imersão é fácil. As cenas de ação contam com as acrobacias ousadas do herói, em coreografias cuidadosas e um trabalho de câmera que valoriza muito bem cada momento, demonstrando os poderes do Demolidor sem recorrer a didatismos. O cuidado em construir a necessidade de um novo uniforme ou de uma nova arma são feitos sem pressa, e, quando surgem, satisfazem bastante.

Não há a necessidade de mostrar seu radar funcionando – ou como o herói vê as coisas ao seu redor – o tempo todo, basta usar os ângulos e cortes corretos com as câmeras, que aqui encontram espaço para criar e funcionar muito bem. Diversas cenas são muito bem dirigidas – e até poéticas -, como uma em que há um chinês cantando em um carro enquanto a câmera gira ao seu redor revelando a ação ocorrendo. E, como aliada, temos uma trilha sonora que se constrói na música clássica, pontuando momentos de maior tensão.

Demolidor cumpriu seu papel de uma forma que superou inúmeras expectativas. A série abriu portas para a Marvel e seus personagens mais urbanos de formas que outras produções com o mesmo objetivo falham mesmo com mais episódios ou temporadas. A história evolui muito através dos episódios, assim como a qualidade, deixando os problemas vistos no piloto completamente para trás em um roteiro que mesclou bem adaptação e originalidade, previsibilidade e surpresa, ação e drama.

Após mais de uma década, podemos superar finalmente o que aconteceu com o herói no passado, que enfim recebeu a adaptação que merece. Resta aguardar as próximas temporadas, torcendo para ver uma Elektra sendo salva também. Mas antes temos outros heróis que a Netflix promete adaptar tão bem, e nós estamos aqui esperando ansiosamente ;)

Demolidor Crítica