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Dartana – A terra do não-saber [Resenha]

Por Pedro Henrique

17 de fevereiro de 2017

Quando se cresce lendo muitos livros, você se acostuma a ter a mente sempre cheia de ideias, pensamentos e observações sobre o mundo, as pessoas e até você mesmo. É uma coisa natural, faz parte da nossa espécie e da nossa evolução. Mas, imagine-se viver em um mundo onde o conhecimento é proibido? E, mais do que isso, onde ele é literalmente devorado de modo a não permitir que você tenha a mínima capacidade de pensar? Deu agonia, né? Pois é neste cenário que Dartana, o mais novo livro de André Vianco, se realiza.

Dartana, o planeta que dá nome ao livro, é um lugar fictício onde as pessoas que lá vivem estão sujeitas a uma maldição milenar que as impede de guardar qualquer aprendizado que as faça desenvolver suas habilidades, sejam elas quais forem. Neste lugar, somente um grupo de pessoas tem acesso ao conhecimento: as feiticeiras, que são, segundo as palavras do autor, “as únicas capazes de guardar conhecimento, zelar pelos habitantes desse mundo sombrio e se conectar com o divino”. Essas feiticeiras são, também, aquelas capazes de se conectar com o deus de guerra que, de tempos em tempos, surge em Dartana com a promessa de libertar o povo da ignorância.

Veja bem, Dartana é uma história essencialmente mística e essa é uma característica marcante ao longo dela, pois determina como ela será construída. A maldição sobre os dartanas não é eterna, ainda que esteja condicionada a algo que, até então, não aconteceu. Para que o povo de dartana se livre de sua maldição, é necessário que um deus de guerra do planeta vença um combate nas estrelas. Daí ocorre que, até o momento em que a história se inicia, nenhum deus de Dartana ganhou.

O livro de André Vianco é o primeiro da nova trilogia do autor que, aparentemente, não deve se focar só no contexto de Dartana. Nesse primeiro livro, a narrativa começa sob o ponto de vista de Jeliath, um jovem pastor que decidira abandonar a vida de marceneiro de sua família, para seguir no campo. Eu, particularmente, me identifiquei muito com ele, pois ele representa muito bem o espírito humano sedento por respostas. Jeliath é um dartana que, como tal, não consegue guardar nenhum conhecimento em sua mente, exceto aqueles dados pelas feiticeiras, necessários para que se tenha uma vida mínima (senão, miserável). Porém, de tempos em tempos, Jeliath tem um lapso de conhecimento, com o qual consegue ver as coisas muito mais claramente, e então consegue pensar em algo que possa melhorar sua vida. Mas isso não é para sempre.

Os dartanas falam que existe uma criatura invisível – porém real (ainda que ninguém nunca tenha visto) – que é a responsável por devorar os pensamentos do povo. Por causa disso, tais criaturas receberam o nome de devoradores. Elas espreitam as mentes dos dartanas, consumindo seus pensamentos toda vez que uma faísca de conhecimento surge, garantindo, assim, que o povo continue na ignorância. Entretanto, vez ou outra ocorre dessas criaturas se afastarem de alguém e essa pessoa ter um lapso de conhecimento, como ocorreu com Jeliath. Mas não é algo que dure muito, pois logo um devorador surge para sugar seu conhecimento, e levar a pessoa de volta à ignorância.

Óbvio que tem mais coisas de que eu poderia falar sobre o livro, por exemplo, o Combatheon, os deuses de guerra, mas são tantas coisas a explorar que fica difícil decidir por onde começar. André Vianco fez um trabalho realmente primoroso neste livro que, diga-se de passagem, é bem grande. Contudo, é um livro com uma leitura bastante agradável e, ainda que seu tamanho (783 páginas) possa assustar leitores iniciantes, é algo que se passa bem desapercebido. Dartana foi lançado pela Editora Rocco, sob o selo Fábrica 231. Vale muito a pena a leitura.

Até a próxima!


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