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Borderlands e a Igualdade

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Por Adrien e Artemys

01 de Novembro de 2015

Em uma época em que a luta pelos direitos humanos está muito mais em pauta, jogos como The Walking Dead: Game e Life is Strange são destacados pela sua diversidade, enquanto outros, como o novíssimo Metal Gear Solid V, são julgados pelo seu machismo.

Pessoas são pessoas, independente de sua cor da pele, sexualidade, gênero; com ou sem super poderes. The Walking Dead e Life is Strange são jogos que tratam os protagonistas do jeito que são, com suas próprias histórias, sem importar se o protagonista Lee é negro ou se a menina Max é hetero ou qualquer outra coisa. Lee pode ter sido gay ou podia ser asiático, Max pode ser hétero, lésbica, bi ou o que você interpretar quando jogar. Mas nessas histórias isso sequer importa. O que importa é a coisa maior, o apocalipse zumbi e o caos no espaço-tempo.

Sexualidade e cor são adendos, assim como é um adendo a comida preferida da Adrien ser pizza. Isso importa no meio do apocalipse? Isso muda alguma coisa na sua vida? Não, e é com essa aceitação e com esse tratamento de todos os preconceitos como inexistentes que encontramos a franquia Borderlands, onde uma mulher ter namorada não é motivo de alarde, onde um negro ser um personagem muito querido é normal, onde você pode escolher se quer jogar com uma protagonista badass ou um cara badass. Ou até um robô. Ou até uma pessoa com braço mecânico.

E nesse universo onde o que realmente importa é tiro, Vaults e se divertir, nós encontramos um lugar em que é aceitável ser quem você é e quem você quer ser.

O Vault e as mulheres

Untitled-2Um dos personagens “carro-chefe” e “garota propaganda” da franquia, Mad Moxxi é apresentada em Borderlands como a sensual dona e mestre de cerimônias do Underdome, uma arena onde os jogadores batalham em rounds com diversos NPCs ao mesmo tempo, onde cada round garante experiência e itens de acordo com o nível do jogador e o round em que está. Em Borderlands 2, descobrimos que Moxxi não é somente a dona do Underdome, mas também proprietária de uma exitosa rede de bares por toda a Pandora – e fora dela. Em The Pre-Sequel, acabamos por descobrir que ser do clã Hodunk fez de Moxxi uma mecânica excelente e que tudo o que seus filhos Ellie e Scooter sabem sobre carros foi, pelo menos em alguma extensão, ensinado por Moxxi. Mais do que uma personagem sensual e sexualizada, Moxxi é inteligente e uma das principais aliadas dos Vault Hunters em suas aventuras. Não falaremos mais para evitar spoilers, mas Moxxi está longe de ser o estereótipo de personagem secundária gostosa feita apenas para agradar o público masculino.

Ellie, filha de Mad Moxxi, nos brinda logo de cara com sua aparência não muito padrão para um jogo de videogame: Ellie é gorda. E não somente chubby, Ellie é obesa e isso não é problema para ninguém (além de Moxxi). Durante as missões que fazemos para Ellie, em uma delas, Ellie dá uma aula de autovalorização que muitas meninas poderiam ter enquanto mais novas. Mais pra frente, em um DLC, Ellie levanta bandeiras feministas e inclusive, de maneira bem meta-linguística, critica a sexualização que diversas personagens femininas sofrem em mídias de entretenimento, sendo uma delas o videogame. Além de sua aparência atípica, Ellie é o tipo de personagem que dificilmente vemos em jogos mais comedidos, principalmente aqueles que têm medo de perder público com a mensagem que desejam passar (como tipo todos).

Mas não são só as meninas que contradizem o machismo. Torgue é um cara musculoso, que ama explosões e é criador de uma coorporação que vende armas explosivas. Ele só sabe falar gritando e adora corridas de carros. Com uma descrição dessas, você já poderia imaginar o estereótipo do Mr. Torgue. Mas o próprio personagem quebra tudo isso logo no início de sua história: desde criança, foi criado pela sua avó depois que seus pais faleceram. Ele também era muito tímido ao redor de meninas. Como se isso não bastasse, Torgue é um dos personagens mais engraçados e inteligentes, sempre soltando frases inesquecíveis como “Nada é mais badass que tratar uma mulher com respeito” e “eu sei que friendzone é um jeito imaginário e misógino de ver relacionamentos”.

O Vault e a não-heteronormatividade

athena-borderlandsShippar é legal, mas ainda mais legal quando seu ship é canon. Aqui, além de ter personagens bissexuais e homossexuais, você vai se encontrar amando casais heteros (Lilith/Roland ) e também lésbicos. Ao iniciar Borderlands: The Pre-Sequel com a personagem jogável Athena, o jogador tem a surpresa de ver a NPC Janey lhe dando cantadas e repetindo o quanto ela é linda. Mas o ship não para por aí. Janey e Athena se tornam um casal canon em Tales From the Borderlands em uma cena que Athena informa a personagem Fiona que Janey é sua namorada. Ao invés disso ser tratado com surpresa ou preconceito, Fiona apenas sorri e age com normalidade, aceitando o fato como algo comum (sssh, foi um spoiler saudável). Além disso, o jogo tem muito mais personagens gays (como Sir Hammerlock) ou até mesmo bissexuais, como o próprio Mr. Torgue ou a Mad Moxxi, num ambiente onde tais orientações sexuais não são sequer questionadas.

O Vault e as minorias étnico-raciais

roland-mordecaiEmbora cada vez mais presentes em mídias de entretenimento e com personagens cada vez mais bem escritos e complexos, Borderlands tem uma característica bem única que “brilha” em todas as edições da franquia: a inclusão de personagens não-brancos (especialmente negros).

Na primeira edição do jogo, somos apresentados a não somente um deles, Roland, personagem jogável e negro, mas sim também a Mordecai que, embora não seja exatamente negro, é uma representação do povo latino. O padrão se repete em Borderlands 2: embora não tenha nenhum personagem negro jogável, o jogo traz novamente um latino — Salvador, desta vez — e diversos NPCs negros, sendo um deles o Sir Hammerlock, uma das primeiras pessoas que conhecemos em nossa jornada. Retornando, desta vez como um NPC de grande importância, Roland é o lider dos Crimson Raiders, um exército para-militar formado com parte dos sobreviventes de sua antiga tropa, os Crimson Lance. Líder natural (não é à toa, visto que no jogo anterior era da classe Comandante), Roland é uma das principais peças na caça a Handsome Jack e na criação de Sanctuary, responsável não somente pela idealização da cidade, mas por trazer todas as pessoas que lá vivem para o lugar.

Entretanto, o jogo não para por aí. Com personagens jogáveis mulheres e negras, The Pre-Sequel! e Tales From The Borderlands são uns dos poucos jogos em que podemos dizer que pelo menos 20% das personagens jogáveis (isso se não contarmos os NPCs, como o Cassius, por exemplo) são negras E importantes E badass. Além disso, como em todos os jogos produzidos pela 2K, existe um personagem latino: e no caso de The Pre-Sequel! a latina da vez é Nisha, que, guess what, também é negra.

O Vault e as pessoas com deficiência física

rhys-tales-bordersPessoas com deficiência física às vezes são subestimadas e até menosprezadas (sem qualquer motivo). É muito raro aparecerem em entretenimento, com exceção à literatura ou em séries (e só conseguimos pensar em Glee, mesmo), e quando aparecem é apenas com o foco em sua deficiência e o combate contra o preconceito. Em Borderlands elas são personagens fortes como qualquer outra. Gaige, por exemplo, é uma menina adolescente jogável, que costumava sofrer bullying e construiu um robô para se defender. Ela tem um braço robótico, assim como Rhys que, além do braço, também tem um olho mecânico. Mas isso só o faz ser ainda mais legal: a adição do braço com o olho permite que ele hackeie, descubra informações e possa fazer outras coisas úteis com o visor na palma de sua mão.

O Vault e o Asperger

tannis-borderlandsO jogo não se limita apenas em mostrar minorias mais evidentes. Uma das personagens que entra nesse nosso “mapa da diversidade” dentro do jogo é Patricia Tannis. Embora a priori não exista nada de “especial” em Tannis, em Borderlands 2 nos é revelado que Patricia Tannis, além de ser a genial pesquisadora de Vaults e seus guardiões eridianos, é também uma pessoa com Asperger, o que explica sua dificuldade em lidar com outras pessoas e alguns outros traços de seu comportamento. Ainda que não sejamos as pessoas mais indicadas para dizer se a representação de Tannis é ou não é caricaturesca, de certa forma pensamos ser importante que uma personagem tão importante para o enredo de Borderlands apresente essa condição de maneira um pouquinho diferente que em outras mídias (como em The Big Bang Theory, por exemplo).

O Vault e o etarismo

hammerlock-bordersVale lembrar que o jogo também não tem problema em colocar pessoas mais velhas em suas fileiras de NPCs e personagens jogáveis. Hammerlock, Cassius, Aurelia, Vallory, Wilheim, Marcus, Mr. Torgue, etc. etc. etc., o que também é incomum para jogos do gênero, onde os “mais velhos” sempre são apresentados apenas como “poços de sabedoria” e de maneira bastante unidimensional. Podemos citar também, embora não sejam idosas, as próprias Athena e Moxxi, já mencionadas aqui no texto, uma vez que Moxxi tem, provavelmente, cerca de cinquenta anos e Athena, segundo a Jackapedia, está beirando os quarenta. TK Baha, Vovó Flemington… E a lista só aumenta se continuarmos a jogar todas as edições da franquia procurando por eles.

Borderlands é um jogo com um universo apocalíptico e caótico, mas mostra que as pessoas não deixam de ser humanas mesmo se vendo obrigadas a comer skags. Muitas vezes recebendo reclamações como “obrigar os personagens a serem feministas” (oi?), as equipes responsáveis por Borderlands parecem não se importar (muito) com os haters e continuam a colocar cada vez mais diversidade e conteúdos críticos em suas criações.

Esperamos que Borderlands 3 nos traga a mesma quantidade de diversão e diversidade, seja na hora de sermos um robô, um latino com um pássaro ou uma vigarista consagrada, seja na hora de invadir acampamentos de bandidos e fazer estrago. Seja quem você for, sempre tem um canto pra você em Borderlands.


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