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Bokurano, o mangá de Mohiro Kitoh [Colabore]

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Por Paolo Zuanazzi via Colabore

Geralmente quando as pessoas pensam em crianças pilotando robôs, vem imagens de histórias felizes ou otimistas, com crianças prodígios que caem no cockpit e salvam o mundo de forças alienígenas. O poder da determinação humana, a amizade e os aspectos positivos da humanidade são enfatizados.

Ou pelo menos, fariam isso antes de Neon Genesis Evangelion ter sido criado, visto que mudou por completo a maneira das pessoas pensarem sobre shows de robôs gigantes. Foi uma desconstrução de vários aspectos narrativos e arquétipos de personagens, demonstrando que colocar crianças a lutar contra horrores Lovecraftianos é uma proposta questionável e que as pessoas que fariam algo assim provavelmente não seriam as melhores. A série é famosa (entre outras coisas) pelo seu cinismo e conteúdo sombrio; a princípio a série é um shounen (ou seja, dirigido a meninos entre 8-15), então causou um escândalo tanto no Japão como fora dele. A série foi muito influente, inspirando as muito semelhantes como Gasaraki e RaXephon; e muitas de suas ideias e conceitos são bem comuns agora.

Aparentemente, alguém decidiu que Evangelion não era deprimente o suficiente, porque existe há algum tempo uma série de robôs que superou o show nesse quesito por completo: Bokurano.

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Bokurano (literalmente “Nosso”) foi um mangá serializado na revista Gekkan Ikki de 2003 a 2009, criado pelo autor Mohiro Kitoh. Conta a história de 15 crianças que acabam sendo envolvidas em uma batalha cósmica. Cabe a cada um pilotar um robô enorme (o qual as crianças chamam “Zearth”, uma contração de “The Earth”, ou seja, o planeta Terra) e defender a terra de ameaças alienígenas. Se não conseguirem destruir os robôs, o seu mundo será destruído. São ajudados em sua missão por uma estranha criatura chamada “Koemushi” (“besouro coprófago” em japonês), que os dá informações sobre o robô, as regras do “jogo” e membros do exército japonês, que tentam minimizar o sofrimento das crianças e dá-los apoio financeiro e emocional.

Este sumário pode fazer Bokurano soar como uma obra clichê, porém, a série é longe de ser o que você pensaria. Ikki é uma revista seinen, o que deve servir de pista que este provavelmente não é uma história apropriada a crianças. E de fato, não é. Muito pelo contrário, Bokurano é uma das histórias mais deprimentes e emocionalmente pesadas que eu já vi, sendo em mangás ou fora deles.

A parte importante de Bokurano é que cada criança pode pilotar o robô apenas uma vez… por que o robô necessita a “energia vital” de seu piloto para funcionar. Ou seja, após pilotar o robô, o piloto morre. Imagine você sendo o pai ou mãe de uma dessas crianças: elas tem que morrer para salvar o mundo, e não há nada que você ou qualquer pessoa possa fazer para mudar isso.

Antes das crianças morrerem, é dedicado alguns capítulos para explorarem quem elas são, o que motiva elas, e a sua reação quanto a situação cruel e infeliz na qual se encontram. É nessas histórias que Bokurano demonstra sua real natureza. As crianças tem diversos problemas, muitas vezes bem sérios: vítimas de abuso sexual, pais ausentes, bullying, crises existenciais, amores perdidos, etc. O mangá não é nada tímido em explorar as ramificações de todos esses problemas, mostrando explicitamente a fraqueza e crueldade da humanidade. Chega a ficar um tanto ridículo que nenhuma das crianças parece ter uma vida normal ou saudável.

Apesar disso, a execução do mangá é tão boa que isso não chega a ser um grande problema (pelo menos não para mim, imagino que outras pessoas possam ter outras opiniões), e o mangá usa os eventos fortes para explorar temas interessantes, e passar para a audiência mensagens que poucas obras tem. As histórias individuais das crianças são tão boas, tão comoventes que cada uma poderia funcionar como uma pequena história em si.

bokurano-275959A arte do mangá é um pouco estranha; uma olhada cursória faria alguém pensar que Kitoh não tem muito talento como desenhista, visto que seu estilo não é necessariamente o mais detalhado. Seus personagens são geralmente todos altos e magros, com características faciais pequenas. Porém em ler o mangá propriamente nota-se que ele tem bom conhecimento de perspectiva e anatomia humana, e o seu senso de design quanto aos robôs é um pouco bizarro, mas completamente distinto. O storytelling também é muito bom; a composição, expressões faciais, ângulos de perspectiva, etc. são bem pensados e ajudam o impacto emocional da obra. É uma dicotomia estranha, mas eu concluo que apesar de escolhas estilísticas estranhas, ele tem talento como artista.

Vale a pena notar que tudo que falei até agora se aplica somente ao mangá. Bokurano foi adaptado em anime em 2005, porém o diretor deste confessou em seu blog que não gostava da história do mangá por ser sombria demais, levando ele a fazer várias alterações na narrativa e nos personagens. Eu vi o anime antes de ler o mangá e não estava ciente dos tipos de mudanças que haviam sido feitas. Avaliando o anime como seu próprio produto, a narrativa não chega a ser terrível, porém a história que ele criou é inferior à da obra original em todos os aspectos. Na minha opinião, o anime removeu todas as mensagens interessantes, colocou aspectos desnecessários na narrativa, e destruiu certos personagens. Não vou culpar o diretor por não gostar da história visto que isso é algo bem subjetivo (especialmente com algo como Bokurano, que não vai agradar a todos), mas se esse fosse o caso, ele não deveria ter sido o diretor. A única coisa boa que realmente posso dizer sobre o anime é que a abertura “Uninstall” é absolutamente fantástica e foi uma escolha perfeita para o show. Fora isso, não há muito o que recomendar, o mangá é a versão definitiva da história.

Em conclusão, Bokurano é uma obra realmente especial, mas não é algo que eu recomendaria a pessoas que não gostam de histórias deprimentes e emocionalmente exaustivas. Também é bem possível que muitos pensem que o autor foi longe demais e chegou a ser trágico por ser trágico, como se estivesse forçando demais. Aliás, é bem fácil entender porque eles chegariam a essa opinião, dado o tipo de história que Kitoh criou. Porém, se você quiser algo que vá lembrar por muito tempo após de ler e que te dê altos feels, Bokurano é uma excelente escolha. A história é apenas 11 volumes, então não é um grande investimento de tempo.

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