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Os Reinos de Nashira: As Espadas dos Rebeldes [Resenha]

Por Pedro Henrique

15 de maio de 2017

Poucas vezes um livro de fantasia me fez pensar tanto no mundo e na realidade que me cercam. Geralmente, até por se tratar de histórias fantásticas, pressupomos que tudo o que se passa em tais narrativas se dê em um universo distante e completamente diferente do nosso. E isso, quase sempre, molda a forma como faremos a leitura dessas histórias. Não é o que acontece em “As Espadas dos Rebeldes”, segundo volume da trilogia “Os Reinos de Nashira”, escrita por Licia Troisi e lançada pela Editora Rocco sob o selo Rocco Jovens Leitores.

Se você não leu o primeiro livro da trilogia, pode conhecer um pouco sobre ele clicando aqui.

Como disse em minha resenha sobre o primeiro livro, “Os Reinos de Nashira” é uma história um tanto mais madura quando em comparação a outras obras escrita pela Licia Troisi. Aqui, a autora não se preocupou muito em omitir aspectos mais sombrios da natureza de seus personagens e da realidade em que eles vivem; a maldade se apresenta em todas as suas formas assim como a bondade também. O cruel anda lado-a-lado com o bondoso e isso cria uma narrativa bastante dicotômica, dualista, ainda que se saiba que a natureza do ser é bem mais plural do que isso.

Todavia, Troisi ainda mantém algumas de suas marcas como, por exemplo, a protagonista feminina encarnada por Talitha, um fiel companheiro vivido pelo seu ex-escravo e amigo Saiph, um velho sábio e misterioso representado por Verba, entre outras coisas. Assim, ainda que a história criada por Troisi seja outra, é possível perceber muitas similaridades com, por exemplo, “As Crônicas do Mundo Emerso”, da mesma autora. Mas, essas semelhanças não são algo que diminuem a história. Na verdade, chega a ser até interessante porque, no fundo, me parece que a autora tenta nos passar alguma mensagem mais profunda e que vai além das narrativas que ela cria. Acho impressionante como a figura feminina tem uma presença tão forte em suas histórias e, ao mesmo tempo, tão verossímil, de modo a mostrar as mulheres não como criaturas perfeitas e soberanas, mas, ainda assim, sem criar a imagem do sexo frágil e da donzela presa no castelo do dragão. Numa época em que protagonistas femininas são um tanto escassas, Licia Troisi faz um trabalho realmente importante trazendo para nós, suas heroínas.

Mas, voltando ao que dizia no início do texto, “As Espadas dos Rebeldes” tem seu maior mérito no fato de ser uma história muito, mas muito contemporânea mesmo se tratando de algo fantástico. Enquanto o primeiro livro trazia o nascimento da rebelião dos femtitas contra o sistema escravocrata de Talária, aqui nós temos uma revolução já em andamento acompanhada por muitas batalhas sangrentas, morte, dor e sofrimento. A fuga de Talitha e Saiph no primeiro livro parece ter desencadeado um sentimento de revolta muito grande nos femtitas que, a partir de então, decidiram se voltar contra seus senhores em prol de sua própria liberdade.

É nesse contexto de revolta que vemos Talitha e Saiph amadurecerem e assumirem, pela primeira vez, suas divergências. Para quem não se lembra, o primeiro livro termina com os dois partindo em busca de Verba, o hérege, a fim de encontrar a solução para a possível destruição de Talária. É nesse contexto que o segundo livro começa. Todavia,  com o caminhar da história e o crescimento da revolta dos femtitas, Talitha e Saiph acabam por encontrar prioridades diferentes para suas vidas. Isso culmina com a separação dos dois: Saiph decide prosseguir em busca de Verba enquanto Talitha se junta aos femtitas na luta contra os talarianos. Essa separação entre os dois vai persistir até o fim da história e vai marcar boa parte desse segundo livro.

Paralelo a isso, temos o desenvolvimento de Megassa, pai de Talitha e conde de Messe e o desenrolar de seus planos para dominar toda Talária com a ajuda de Grele, noviça do mosteiro de Messe e inimiga de Talitha. Alguns personagens retornam nesse segundo livro e fazem desabrochar outros aspectos de alguns personagens.

Mas, o que acho interessante considerar nesse segundo volume de “Os Reinos de Nashira”, é que a forma como a revolta dos femtitas se desenvolve tem muita semelhança com a forma como os movimentos ativistas de nossa realidade tem se estabelecido em nossos dias. Aqui, fica uma crítica importante a eles: ainda que não se possa comparar a dor do oprimido com a agressão do opressor, nada impede que todos os oprimidos se tornem, um dia, os próprios opressores. E é o que, aparentemente, parece acontecer ao longo da história.

Ainda que, no começo de tudo, os femtitas tivessem se organizado em prol de uma causa justa: sua liberdade, ao longo do tempo isso parece ter se ocultado sob um manto de ódio desmedido que, ainda que explicável, não era justo. Talitha percebe isso aos poucos e, num dado momento, acaba por se rebelar contra os femtitas, terminando assim, numa espécie de limbo das causas perdidas, afinal, é perseguida e odiada pelos talarianos (seu pai, inclusive) e, agora, passa a ser inimiga dos femtitas, contra os quais se rebelou.

Enfim, “Os Reinos de Nashira – As Espadas dos Rebeldes” é uma ótima continuação para a história começada em “O Sonho de Talitha”. Licia Troisi mostrou, mais uma vez, sua grande habilidade em criar uma história muito envolvente e, ao mesmo tempo, muito instigante. Não vejo a hora de saber como essa história termina.

Uma ótima leitura.

Até a próxima.

Revisado por Adrien.


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