Home » Destaque » A Herdeira da Morte [Resenha]

A Herdeira da Morte [Resenha]

a-herdeira-da-morte-topoPor Pedro Henrique

09 de novembro de 2016

Eu considero o livro “A Herdeira da Morte” uma obra bastante mística. Mística porque, entre outras coisas, lida muito com a simbologia e a importância de figuras divinas e sobrenaturais na formação de uma sociedade. “A Herdeira da Morte” é um recente lançamento da Editora Rocco sob o selo Fantástica Rocco e foi escrito por Melinda Salisbury, que estreou no mercado literário. É um livro bastante interessante, ainda que não seja perfeito: ganha pela mitologia que apresenta, mas perde um pouco pela narrativa pouco dinâmica.

Melinda Salisbury começou sua vida de escritora lançando um livro que oferece não mais do que o necessário ao leitor. A história da autora narra as desventuras de Twylla, uma jovem menina o Reino de Lormere que, no início de sua adolescência, foi descoberta como a reencarnação de uma figura divina chamada Daunen. Por causa disso, foi “recrutada” para se casar com o príncipe e governar o reino. “A Herdeira da Morte” gira, basicamente, em torno da vida de Twylla enquanto Daunen Encarnada, sua reclusão no castelo e o medo que as pessoas tem de interagir com ela.

Twylla tem um dom – que mais seria uma maldição: o toque de sua pele é mortal, envenenando qualquer um que se atrever a ter o mínimo contato físico com ela. Supostamente, isso é uma “benção” dos deuses a ela e, ao mesmo tempo, é sua maldição, já que é usada como executora dos criminosos que são culpados de traição. Somente a família real é imune ao veneno que corre na pele de Twylla e, por isso, ela é destinada a fazer parte da corte e se casar com o príncipe.

Como disse antes, “A Herdeira da Morte” é um livro bastante místico, pois lida principalmente com a influência da religião na sociedade. No contexto do livro, há três figuras divinas que determinam, entre outras coisas, o futuro do reino de Lormere: Nᴂt, Dᴂg e Daunen. Nᴂt é a deusa da noite e da morte, simbolizada pela Lua e esposa do deus Dᴂg. Dᴂg é o deus do dia e da vida, simbolizado pelo sol. Nᴂt e Dᴂg são deuses que se contrabalançam. Porém, Nᴂt, por inveja de seu marido, vive a destruir tudo o que Dᴂg cria. Disso nasceu Daunen, a filha do casal, para balancear os poderes entre os dois deuses e manter o equilíbrio entre vida e morte. De tempos em tempos, Daunen encarna em Lormere, na forma de uma menina branca e de cabelos ruivos e com uma habilidade ímpar para cantar. Twylla se tornou a última encarnação de Daunen por ter todas essas características.

Mas, nem sempre Twylla cumpriu esse papel. Antes de ir para a corte, vivia com sua mãe, que a treinava para a ser a próxima devoradora de pecados – uma espécie de cargo religioso na qual uma mulher expia os pecados dos mortos para que seus espíritos não fiquem vagando perdidos no pós-vida. É no funeral do antigo rei de Lormere que Twylla é descoberta e, dias depois, convocada para viver no castelo.

De início, o livro de Melinda tem uma história bastante arrastada e muito focada nas lamentações de Twylla. Temos algumas lembranças de seu passado antes da corte e logo depois de assumir seu papel de Daunen Encarnada. Temos um pouco de sua rotina nas narrações e colheitas (rituais religiosos realizados no castelo) e um pouco de seus pensamentos sobre outras coisas. Do meio em diante, a história ganha um fôlego a mais com a adição de um novo personagem que surge para abalar as estruturas de Twylla. É esse mesmo personagem que, aos poucos, irá mostrar à Twylla todo um universo de mentiras por trás do Reino de Lormere, no qual ela própria é peão de um plano obscuro perpetrado pela Rainha.

A Herdeira da Morte” é um livro muito sutil e isso me chamou a atenção. Não é um livro que tenha uma narrativa muito envolvente, mas também, não é de todo tedioso. Eu o considero como um livro Sessão da Tarde: cumpre seu papel sem prometer mais do que é capaz de oferecer. Ainda assim, vale destacar que Melinda Salisbury fez um trabalho crítico interessante: o paralelo que temos entre Lormere e nossa realidade é inegável, especialmente em tempos eleitorais, quando a sociedade busca definir quais os melhores indivíduos para comandar nosso futuro pelos próximos anos. É uma crítica sutil, mas eficiente, de como a religião como um todo pode minar a estabilidade social e cercear nossas liberdades, criando um ambiente averso à liberdade de expressão, pensamento e opinião.

Essa é minha dica de hoje. Espero que tenham gostado e até a próxima.

Grande abraço!

Revisado por Adrien.a-herdeira-da-morte-nota


Leia também: