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Figurino das Princesas: Aurora

AURORATOPOPor Beatriz Albarez.
11 de março de 2016.

O conto de A Bela Adormecida foi escrito por Charles Perrault, publicado em 1697, e se chamava The Sleeping Beauty in the Wood. Este, no entanto, foi baseado em Sol, Lua, e Talia, uma história de Giambattista Basile publicada em 1634.

Na versão de Basile, Talia é a filha de um lorde que foi destinada a um grande perigo no futuro, causado por uma agulha de fiar linho. Quando crescida, ela ficou curiosa ao ver uma senhora fiando e, ao tentar também, espetou seu dedo na agulha, caindo em um sono profundo. Porém, seu pai achou que ela estava morta, mas não conseguiu enterrar a filha, levando-a para uma casa que tinha no campo.

Um dia, um rei que caçava aos arredores encontrou a casa – e Talia. Ele tentou acordá-la, não conseguiu, mas isso não o impediu de estuprar Talia. Ela deu a luz a gêmeos, enquanto ainda estava em sono profundo. Com fome, e incapaz de encontrar o peito da mãe, a menina encontrou o dedo espetado, e acabou por sugar o veneno que havia colocado Talia naquele sono. Ela acordou, se deu conta de suas duas crianças e as nomeou Sol e Lua.

Quando o rei voltou à casa, encontrou Talia e as crianças. Já casado, em seu sono murmurava o nome de Talia e de seu filhos, o que irritou a rainha, sua esposa. A rainha então pergunta ao secretário quem são as pessoas que o rei mencionava e manda preder todos. Ela dá a ordem ao cozinheiro para servir as crianças ao rei – que os esconde e serve carneiros em seus lugares – e de queimar Talia na fogueira. Quando o rei escuta os gritos de Talia, vai ao seu socorro e manda queimar sua esposa, salvando Talia e os filhos.

É uma história um tanto quanto pesada e – felizmente – Charles Perrault faz alterações que deixam o conto mais apropriado para crianças e menos creepy. A menina é filha de um rei e uma rainha que tinham muita dificuldade em ter filhos. Quando ela nasce, é dada uma grande festa e o rei chama as sete fadas de seu reino para serem madrinhas da criança, presenteando-a com coisas tão boas que a tornariam uma perfeita princesa.

No dia da festa, aparece também uma velha fada que não foi convidada, já que há muito estava desaparecida. Por descontentamento, ela lança uma maldição na criança, dizendo que esta iria morrer aos dezessete anos, espetando o dedo em uma roca de fiar. Uma das fadas, conseguiu alterar a maldição, fazendo com que a menina caísse em um sono profundo, em vez de morrer.

As fadas colocaram todo o reino para dormir também, menos o rei e a rainha, que se mudaram do castelo. Logo ele foi rodeado por uma densa floresta e quase esquecido por todos. Cem anos depois, após outra família real tomar o trono, o príncipe então, saindo para caçar, notou as altas torres do castelo. Seus companheiros falaram sobre várias lendas daquele lugar, mas uma o chamou a atenção: de que havia uma princesa esperando para ser acordada por um príncipe.

Ele foi até a torre e a acordou com um beijo, se casaram e tiveram dois filhos, Dawn (amanhecer) e Day (dia). No entanto, o príncipe nunca contou aos seus pais sobre a princesa e sempre falava para eles que ia “caçar” quando, na verdade, ia para o castelo. Sua mãe, que era metade ogra, nunca confiou inteiramente no filho, e quando o rei morreu e o príncipe subiu ao trono, sua família foi revelada.

Quando o príncipe – agora rei – saiu para uma guerra, sua mãe-ogra ordenou, um dia que matassem Dawn para servi-lo no jantar; no dia seguinte pediu por Day; e por último pela princesa – agora rainha. No entanto o cozinheiro não foi capaz de matar nenhum dos três e serviu animais em seus lugares. Porém a rainha um dia ouviu as vozes deles, escondidos no castelo. Mandou então que fossem jogados em um tanque com serpentes, sapos, víboras… Felizmente o rei voltou a tempo e sua própria mãe foi jogada no tanque, enquanto ele salvava sua esposa e dois filhos.

Dá pra perceber que as duas histórias tem seus pontos em comum. Assim como Bela Adormecida da Disney também tem seus pontos em comum com a história de Charles Perrault. Nesta ela diverge, principalmente, pelos pontos mais fantasiosos, como a Malévola sendo uma bruxa que se transforma em dragão e com a qual o Príncipe Phillip luta a fim de chegar até Aurora;  também diverge pelo fato de que eles se casam e ponto, não há filhos ou nenhuma vingança contra a mãe de Phillip. Outros dois pontos diferentes são: que Aurora foi criada com as fadas, sem saber que era uma princesa; além que o rei e a rainha também caem em sono profundo, vivendo para ver a filha acordar.

Original_Sleeping_Beauty_Poster

O filme produzido por Walt Disney teve estreia em dia 29 de janeiro de 1959. Foi a última animação grande do estúdio antes de seu hiatus, retornando apenas em 1989 com A Pequena Sereia.

Segundo o próprio Príncipe Phillip, a animação é situada no século XIV. Dessa maneira podemos ter uma melhor referência para alguns elementos dos figurinos desenhados para os personagens, uma vez que também são enriquecidos com elementos de vestuário e estética de outras épocas, como a própria década de 1950 – quando foi produzido.

Aurora possui dois figurinos no filme todo. Sua roupa de camponesa, enquanto vivia com as fadas escondida na floresta e seu vestido de aniversário/baile – que é ora azul ora rosa.

Seu visual como camponesa apresenta um corpete que é fácil de identificar como medieval. É nesse momento da história do vestuário que os corpetes começam a aparecer no traje feminino. Ele possui uma abertura na frente, com um cordão fechando-o; no entanto, a forma mais comum de amarrar os cordões eram em zigue-zague simples, não cruzado como vemos em Aurora.

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A camisa e as saia ampla, por sua vez, são referências da década de 1950, que tinha vários modelos de vestidos com saias rodadas, camisas com golas altas, manga comprida e ligeiramente fofa. No século XIV as mulheres usavam saias longas e não tão rodadas, e as camisas – que eram geralmente usadas como uma roupa de baixo – possuíam golas diferentes e mangas mais justas. Em muitas imagens dessa época, vê-se as mulheres com mangas compridas e de punhos muito largos, por vezes alcançando o chão; estas não são das camisas, mas sim de uma sobreveste.

E aqui tem um funfact: a modelo viva que foi inspiração para o desenho de Aurora, Helene Stanley, vestiu uma saia desenhada por Alice Davis, exclusivamente para o teste de movimentos. Alice então conheceu Marc Davis, o animador que trabalhava na produção e logo eles se casaram. Alice trabalhou como figurinista em outros projetos da Disney, incluindo Piratas do Caribe.

Aqui tem um vídeo bem legal de Helene interpretando Aurora, para um estudo de movimentos para desenhar a personagem!

O vestido de aniversário/baile também contém alguns elementos do século XIV, trabalhados bastante sutilmente e com modificações.

A parte branca, que seria um decote-manga, pode ter influência do decote em V do século XIV; as mangas justas e coroa tem referência no século XVI, ambos indicados na figura abaixo; mas também das silhuetas formadas pelas ombreiras espanholas do século XVI; pode-se ainda encontrar referências do vestuário espanhol do século XVII: François Boucher, em História do Vestuário no Ocidente, coloca as formas triangulares como predominantes do vestuário feminino, e podemos perceber que o vestido de Aurora também é desenhado na base de diversos triângulos.

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O figurino de Malévola também é bastante interessante. Ele possui as mangas longas e de punhos amplos das sobrevestes medievais do século XIV. Também podemos encontrar referências da gola alta em figuras da do século XV. Até mesmo os chifres de Malévola – que remetem ao seu poder de se transformar em dragão – podem ter sido inspirados nos adornos de cabelo das mulheres que se assemelhavam, por sua vez, com chifres.

MALEVOLA

 Espero que tenham gostado dessa pequena pesquisa. Já conferiram nosso post sobre o figurino da Branca de Neve e da Cinderela?

O próximo Figurino das Princesas será sobre Ariel! <3


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